9.1.14

O anjo bêbado

Publicado no Suplemento Literário de Minas Gerais
(Novembro / Dezembro)


















Para ler as crônicas de Paulo Mendes Campos talvez fosse produtivo entender sua complexa relação com a embriaguez, assunto de inumeráveis textos e também a figura que poderia sintetizar uma espécie de sensibilidade, modo de enxergar o mundo, pois não se trata apenas de um assunto. Se é verdade que em Machado de Assis a crônica possui a falsa amenidade dos bondes, em João do Rio o encanto das ruas e finalmente em Nelson Rodrigues a paixão das arquibancadas, sem dúvida a mesa do bar, essa “casa kafkiana onde as pessoas se reúnem sem serem convidadas”, é o espaço onde Paulo Mendes encontra sua forma de escrita. Mas não em sentido literal, afinal o próprio cronista dizia que não escrevia em bar e nem entendia pessoas que bebiam para escrever. “Georges Bernanos escrevia em bares com o risco de passar por bêbado”, escreveu a respeito do escritor francês mais amado daquela geração de mineiros. 

Levando em consideração que a embriaguez, segundo “um dos aforismos pungentes da literatura”, deve ser encontrada no vinho, na poesia ou na virtude, então se pode concluir que Paulo Mendes, em suas crônicas, leva à risca o conselho de Baudelaire em todas as suas definições. Vamos começar pelo álcool. Em um de seus principais textos sobre o tema, “Por que bebemos tanto assim?”, o cronista oferece em bandeja de prata a nossa chave de leitura: “o homem bebe como o poeta escreve seus versos, o compositor faz uma sonata, o místico sai arrebatado pela janela do claustro, a adolescente adora cinema, o fiel se confessa, o neurótico busca o analista”, ou seja: “o homem bebe para driblar a si mesmo”. Diferente de muitos outros cronistas, a embriaguez em Paulo Mendes jamais será tratada com leviandade ou mesmo simplicidade. Em sua bela definição, a embriaguez nasce de um desentendimento entre corpo e espírito. Mas o que significa exatamente afirmar que o álcool é como o verso para um poeta?

Em uma crônica sobre a casa do escritor Aníbal Machado, que com frequência servia como ponto de encontro a todo tipo de gente, Paulo Mendes enfatiza a mistura, certo caráter híbrido que ditava o ritmo das reuniões, enfim, a desordem, e não a classificação. “Ficou-me de todas as reuniões de sábado uma ideia aglutinada, mais ou menos assim: a pintora portuguesa Maria Helena Vieira e o poeta Murilo Mendes conversam sobre Mozart; Carlos Lacerda fala em francês com um general iugoslavo”, e assim vai até o fim da crônica, que conta ainda com Rubem Braga bebendo com ar chateado, Fernando Sabino fazendo mágicas para um grupo de crianças e o poeta Paulo Armando querendo briga com um cientista de Alagoas. Quero dizer que, como na casa de Aníbal ou na mesa de um bar, também a escrita de Paulo Mendes não é nada seletiva, chegando ao limite de – para usar a própria imagem do ébrio – driblar a si mesma. Em uma palavra, não ser mais crônica.

É verdade que a crônica, como gênero textual essencialmente moderno, já nasce ébria, indefinida, tropeçando nas próprias pernas. Mas a crônica sempre foi também o lugar da facilidade, de certa moderação, do consumo rápido e finalmente da trivialidade, princípios pelos quais Paulo Mendes Campos jamais se adequou inteiramente. No posfácio de O amor acaba, Ivan Marques resume a questão quando afirma que o nosso cronista não possui a “fascinação do prosaico que é tão marcante na crônica de linguagem simples e assunto trivial que se consagrou em nossa literatura”. Tem razão. Arrisco a dizer, por exemplo, que nenhum outro escritor brasileiro deu à crônica a densidade ensaística e até mesmo filosófica que se lê em seus textos, todos publicados em jornais ou revistas efêmeras. Tratamos de peso, portanto. Daí Flávio Pinheiro, crítico e organizador de duas recentes antologias com textos do cronista, lembrar da tradição do ensaio, de Montaigne aos ingleses. Em resumo, misturando uma reflexão densa, mas sem o rigor da pesquisa, ao traquejo do melhor da crônica brasileira, eu diria que Paulo Mendes Campos construiu um estilo novo que poderia ser pensado através de sua relação com o álcool – relação delicada, franca, humana e aflita.



A crônica citada sobre o tema da bebida é exemplar. De certa maneira, ela trata de todos os estágios pelos quais passamos na mesa de um bar; começa graciosa e moderada, faz duas ou três citações inteligentes, passa por reflexões de teor existencial, definições vagas, um caso curioso ou engraçado, provavelmente verdadeiro, torna-se lírica e finalmente acaba triste. “O uísque não me interessa, o que interessa é a criatura humana, esta pobre e arrogante criatura”, diz no último parágrafo. A mesa do bar sugere uma narrativa que pode ser alterada a qualquer momento e principalmente deve receber tudo: da reflexão inteligente ao lugar comum, do ceticismo ao mais deslavado otimismo, da “singularidade da tristeza” ao riso sem controle, do lirismo à piada fácil, da confissão ao poema em prosa, enfim, o que há de mais profano e mais religioso, e é por isso que a embriaguez fica sendo também uma qualidade dos anjos.

A intensa relação da crônica do também poeta Paulo Mendes Campos com a poesia, consenso entre diversos críticos, é justamente outro modo de tratar o tema da embriaguez, que não deve ser confundido com alcoolismo: “O álcool é tão só a modalidade primária e comum à embriaguez. O bar é a primeira instância da causa do homem. O uísque (cachaça) é apenas uma das formas vulgares de todos os ritos milenares de encantamento”, escreve. Podemos pensar: o bar está para a crônica como a embriaguez para a poesia. O anjo bêbado, portanto, não é o cronista, mas o poeta. Ivan Marques, no mesmo ensaio, afirma que “O berço dessa crônica é a poesia”. No posfácio da outra edição, O mais estranho dos países, Sérgio Augusto chega a afirmar que, se pudesse, Paulo Mendes Campos “viveria só de poesia”. Diz ainda que o cronista era tímido e retraído, mas ao mesmo tempo podia ser impulsivo e impetuoso, sobretudo quando não estava mais sóbrio, como aliás parece acontecer com as suas crônicas.

Mas qual seria afinal a natureza discursiva da escrita de um anjo bêbado? O próprio Paulo Mendes Campos indica a resposta na síntese de um título: “Discurso à beira do caos.” Em uma de suas muitas crônicas sobre Vinícius de Moraes, para quem aliás nenhuma boa amizade nasce na leiteria, lemos também a seguinte confissão já nas primeiras linhas: “Poesia é fundamental. É preciso que haja qualquer coisa de louco e lírico em tudo.” Ou seja, suas crônicas são feitas de sombra, e não de luz; são opacas, e não transparentes. Nesse sentido, “O cego de Ipanema”, texto sobre um personagem cego que ironicamente faz chaves, arruma fechaduras e conserva “uma figura misteriosamente elegante, de uma elegância hostil”, ilustra com perfeição a hipótese. Na cena final, ao sair bêbado na rua em um domingo de sol, o cego passa a representar, no comentário do cronista, “todas as alegorias da noite escura da alma”. E ainda melhor: “A poesia se servia dele para manifestar-se. (...) A cegueira não mais o iluminava com seu sol opaco e furioso”.














Paulo Mendes Campos é o cego e o bêbado de sua própria crônica, naturalmente. É a figura da cegueira que dá a seu texto muitas vezes a sensibilidade de um poema, como “Versos em prosa” ou mesmo, para ficar no horizonte da embriaguez, “Réquiem para os bares mortos”, que tem a linguagem repetida e enigmática de uma oração: “Recreio Velho, rogai por nós. Túnel da Lapa, rogai por nós. Chave de Ouro, rogai por nós. Hoje sou um homem sem mais nada. (...) E depois me recolho do chão em que fui derramado e subo até vós”. Tendo como pretexto lembrar de bares que não existem mais, a crônica é um verdadeiro canto fúnebre que associa o homem, o bar e a morte, lembrando os melhores momentos da prosa de Nuno Ramos, em raras imagens como esta: “À meia-noite, o milionário faz a barba com uma gilete nua, molhando o rosto em uísque”. Na verdade, seguindo sua máxima, “o bom freguês só ama o bar que se foi. Só na lembrança os bares perdem suas arestas e se sublimam.”

O tema da embriaguez, por fim, invade os perfis que Paulo Mendes Campos faz de outros intelectuais e artistas, publicados originalmente na revista Manchete, e mesmo as crônicas cujos temas são Belo Horizonte, “uma tentação de chope”, “os bares simpáticos da Rua da Bahia”, ou em sua inesquecível ontologia do brotinho: “Ser brotinho é ter uma vez bebido dois gins, quatro uísques, cinco taças da champanha e uma de cinzano sem sentir nada, mas ter outra vez bebido só um cálice de vinho do Porto e ter dado um vexame modelo grande”. No perfil do músico Antônio Maria, o cronista lembra que se tratava de um boêmio brilhante cuja “sede aflita jamais o deixou.” No sábado seguinte, ao escrever sobre outro músico, Ari Barroso,  a crônica abre com as seguintes palavras: “Ari Barroso não foi tão assíduo quanto Antônio Maria no Ministério da Noite, mas não chegou a ser um funcionário relapso”.

E finalmente a virtude, esta última forma de embriaguez. Que deve ser pensada, na obra de Paulo Mendes, como pureza. A morte é a forma mais evidente e radical da pureza, sem dúvida, mas não é a única. Ao tratar de música popular brasileira, o cronista confessa seu gosto pela “limpeza praiana de Caymmi”. Quando volta a Belo Horizonte, nota que tudo foi soterrado pelo progresso: “Enterraram a minha cidade e muito de mim com ela. (...) enterraram os meus bares; enterraram as moças bonitas do meu tempo; os meus bondes; as minhas livrarias”. Por isso os cegos, os bêbados e os anjos de suas crônicas são os virtuosos que não veem. Quando Paulo Mendes Campos diz, parafraseando Mário de Andrade, que “os bares morrem numa quarta-feira”, ele está dizendo que a vida também morre. Daí podemos entender a mesa do bar de outra maneira; como mesa consagrada, santuário, altar.

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