19.1.14

A ninfomaníaca de Lars

Adorei Ninfomaníaca. Acho que Lars é um grande artista no sentido de que apenas ele poderia falar de sexo da maneira como fez. Cheio de humor, quem diria. Daí a frustração de muita gente, claro.

Aliás, o humor do Lars é o de quem não acredita mais no homem - pra falar a verdade, mais em nada - e por isso que é tão bom. A rigor, nem no cinema Lars acredita muito. Se muita gente criticou o esquematismo e artificialidade do encontro entre Joe e Seligman, eu explicaria dessa maneira: Lars não está nem aí pro enredo. Isso é com o Tarantino. É como se ele dissesse: "vamos resolver rapidamente toda essa parte chata e burocrática da narrativa e ir logo pra aquilo que mais interessa". E o que interessa? O que interessa são as suas teorias. De certa maneira, o cinema do Lars não faz outra coisa senão isso: criar teorias.














O Jose Geraldo Couto notou bem isso na cena em que Seligman duvida de uma parte da narrativa de Joe e ela responde que ele não tem outra alternativa senão acreditar. Nesse sentido, como narrador, Lars está totalmente identificado com a Joe. Para ele, pouco importa se o espectador vai acreditar ou não. Cada um que se resolva.

Na verdade, é um pouco mais complexo. Em resumo, Lars varia até onde pode nas maneiras de representar com a única finalidade de confundir o espectador a ponto de que ele abra mão do expediente "realista". Quem não abrir mão, acaba tendo problemas com o filme, o que também está previsto.

Por outro lado, não concordo com o Jose Geraldo quando ele diz que Ninfomaníaca "não é um filme de sexo e tampouco sobre o sexo". Ele diz que o sexo é "apenas" o meio. Só que, ora, nesse caso o meio é tudo.

Enfim, adoro também aquelas viagens de colocar gráficos e criar teorias e comparações meio malucas da ninfomania com a 1) a polifonia, 2) a matemática e 3) a vida dos peixes (!!).  O resultado pode ser mais ou menos feliz, mas quando Lars acerta, como nas últimas cenas, quando Joe descreve três dos seus amantes, o efeito é poderosíssimo.

Seja como for, pra quem esperava mais sexo (ou seja, mais autodestruição, peso, sadismo etc.), sem dúvida tudo isso estará na segunda parte. Acho que a quebra da expectativa agora e o retorno da violência depois faz parte do showzinho de Lars. Digamos que a primeira parte do filme seja a construção da teoria, e a segunda é a sua destruição, coisa que a última cena, quando Joe diz que "não sente nada" enquanto transa com "o homem que ama", só vem deixar evidente, assim como a aparência horrorosa da atriz no momento em que narra.

Seu ponto de vista é o de quem, literalmente, está fodido, e não o contrário. Quem viver, verá.


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