4.2.13

Sórdido, nefasto, pulcro, patético e fulminante


Por Victor da Rosa
publicado no Diário Catarinense



















Uma das coisas mais interessantes que li nos últimos dias – depois do livro de poemas de Michel Temer lançado na semana passada e do qual infelizmente esqueci o título – foi o primeiro romance de um escritor mexicano que hoje vive discretamente em nosso país, Juan Pablo Villalobos, 39. Conheci o trabalho de Villalobos através da coluna mensal de crônicas que o escritor mantém no blog da Cia das Letras, então cheguei a uma divertida reportagem que ele escreveu há uns meses sobre Neymar – intitulada Que cabelo é esse?! –, até que seu elogiado romance, enfim, me caiu nas mãos: Festa no Covil (Cia das Letras, 2012). Foi um caminho mais ou menos longo – de três meses, umas 10 páginas e diversas risadas – mas nada tortuoso.

Festa no Covil é um romance bem curtinho, de menos de 80 páginas, que qualquer leitor menos preguiçoso do que eu deve ler em uma sentada apenas, e que eu li em duas sentadas ou três, pois livro quando é bom, segundo as palavras de um amigo meu, tem que ler devagar, diferente do que diz a regra. O que deve ser lido rápido é livro ruim, pois você acelera a leitura na esperança de encontrar alguma coisa aproveitável, e quando viu o livro já acabou. Este meu amigo, por exemplo, levou uns quatro anos pra terminar Dom Quixote, mais cinco pra resenhar Guerra e Paz e exatamente vinte e três minutos cravados pra ler – de cabo a rabo – o livro de poemas de Michel Temer. Mas vamos ao que interessa.

Embora seja o primeiro romance de Villalobos, e apesar de ser um romance tão curtinho, Festa no covil tem muito a dizer sobre o nosso tempo e nos prende, além do mais, porque é simples e engraçado, mas insinuante e também assustador. O romance é a visão de mundo de uma criança, mas não de uma criança comum e tampouco de um mundo qualquer, e sim do filho de um chefe do narcotráfico no México. Em resumo, o pequeno Tochtli (coelho, na língua asteca) vive trancado na solidão de um “palácio”, no meio apenas de adultos e da própria imaginação, e nos conta, dentre outras coisas, o sonho de ter um hipopótamo anão da Libéria, talvez o único objeto que não poderá ter. Na tentativa de se livrar do tédio, Tochtli coleciona chapéus, assiste constantemente o noticiário da tevê, conta nos dedos quantas pessoas conhece (tirando os “cadáveres”, umas doze) e busca entender os mistérios que cercam a vida de seu pai, Yulcault, que por algum motivo não gosta de ser chamado de pai.

O melhor do romance, sem dúvida, está na argúcia com que o autor nos oferece um ponto de vista bastante original e inusitado sobre um tema tão batido no romance latino-americano: o narcotráfico, a violência, enfim. A graça de Festa no Covil – que desde o título já explora a figura de linguagem mais recorrente da narrativa: o eufemismo – consiste basicamente em associar, de maneira surpreendente, o tema do narcotráfico ao olhar infantil. Em outras palavras, Tochtli nos apresenta um mundo violento, só que mediado pelos dicionários e pela própria ingenuidade. É justamente a imagem do dicionário que abre o romance e oferece algumas chaves de leitura: “Algumas pessoas dizem que eu sou precoce. Dizem isso principalmente porque pensam que sou pequeno pra saber palavras difíceis. Algumas das palavras difíceis que eu sei são: sórdido, nefasto, pulcro, patético e fulminante”, diz Tochtli.

A provável distância entre a vida do dicionário e as cenas que vão sendo narradas por Tochtli – por exemplo, a maneira “pulcra” como os franceses deceparam o pescoço de seus reis, através da guilhotina, que “nem espirra sangue” – não funciona como uma maneira de amenizar a violência ou torná-la mais tragável; antes, esta distância tem efeito devastador, pois nos recoloca em contato com a violência da maneira mais, digamos, natural. Desconfio que é exatamente a naturalidade – esta mesma que abrange os noticiários diários que se tornaram, afinal, mais ficcionais do que a própria ficção – que no fim acaba se voltando contra o próprio leitor. Afinal, como diz o próprio Tochtli em um de seus muitos aforismos que soa como enigma, “a naturalidade serve para fazer direito as mentiras e os enganos”.

4 comentários:

VILTO disse...

Nunca me ocorreu que o Villalobos não fosse brasileiro, engraçado; apesar de certamente já ter lido algum texto dele no blog da Companhia das Letras.

Suponho que seu amigo seja "imaginário" (risos), mas a jogada foi boa.

Parabéns pela crônica, apesar de eu ter ficado com a impressão de que ela acabou muito rápido.

Abraço!

Victor da Rosa disse...

É mesmo, Vilto. Em certo sentido, ele é mais brasileiro do que os brasileiros. Mas acho também que os rumos da prosa do Villalobos é diferente da prosa dos escritores brasileiros de hoje. Não sei. Na verdade nem pensei muito sobre isso. Seja como for, ele tem "algo" de brasileiro, sim. Sobre o tamanho, saiba que sempre extrapolo meu limite no jornal! Incrível, não? Obrigado pela visita. Outro abraço pra você.

Lengo D'Noronha disse...

Interessante como uma crítica literária funciona melhor que qualquer departamento de marketing.
Ao Villa, o outro caudilho.
Abraço.

Victor da Rosa disse...

Valeu a leitura, Lengo! Não deixe de ler o livro do Villalobos quando tiver um tempo sobrando; é muito legal! Abração!