11.2.13

Retrato de Benedito João dos Santos Silva Beleléu


 Por Victor da Rosa
Publicado no Diário Catarinense

















Quando Itamar Assumpção foi parado pela polícia de São Paulo, talvez atrasado para um show que faria dali a duas horas, o músico respondeu dizendo que cantava em uma banda, era artista, não era bandido. Então os policiais quiseram ver seus documentos, saber o nome da banda e todas estas burocracias. O nome era Isca de Polícia, a primeira banda de Itamar. De maneira que o músico, claro, foi parar na delegacia e teve que explicar ao delegado esta licença poética. A história é contada no documentário Daquele Instante em Diante, dirigido por Rogério Velloso, uma homenagem ao artista.

Primeiro filme da série Iconoclastas, do Itaú Cultural, o documentário estreou há quase dois anos, em meados de 2011, e há alguns dias foi disponibilizado gratuitamente na internet, gesto que recebemos como um presente de carnaval e que, sem dúvida, amplia um dos papéis que o filme deseja cumprir: apresentar o músico a um público que ainda não teve a oportunidade de conhecê-lo. Mas o filme, por outro lado, passa longe de ser uma aula. Para uma das filhas de Itamar, por exemplo, o documentário serviu pra “matar as saudades do pai”. Em junho de 2013, devemos celebrar os 10 anos de morte daquele que, apesar de tudo, continua pouquíssimo conhecido entre muitos e bastante amado entre poucos, entre os quais se inclui este colunista que vos fala.

O filme, além de recuperar a carreira tumultuada de Itamar – que chegou a montar uma banda só com mulheres porque, ao que parece, perdeu a paciência com os homens – lembra também muitos aspectos de sua vida íntima, com depoimentos de familiares, de amigos próximos e até de seu médico, além de parceiros frequentes do músico, como Arrigo Barnabé e a poeta Alice Ruiz. Não há figurões da MPB e nem críticos de música querendo nos convencer de que Itamar é um gênio, embora seja, naturalmente. Pelo contrário, ficamos sabendo que o músico, além de amoroso, era noveleiro, amante das plantas e vivia falando mal do Caetano Veloso. Uma das qualidade do filme está na delicadeza ao tratar de sua vida, mostrando que Itamar não era apenas o personagem de Nego Dito, que se invoca, briga, faz e acontece, bota pra correr, embora fosse tudo isso também.

Existe um discurso, justo até, de que Itamar Assumpção não é reconhecido como deveria. No entanto, uma coisa que chama atenção no filme – que, aliás, tem uma série de registros preciosos – é que seus shows, sempre delírios completos, costumavam estar lotados. São gozadíssimas as partes em que Itamar interage com o público, seja dizendo impropérios a alguém, meio na brincadeira mas meio a sério, ou falando segredos no ouvido de um alemão que parecia não acreditar naquilo, durante o show em Colônia. Depois, em suas canções, Itamar muitas vezes reafirmou e jogou com essa posição de maldito – ou seja, tirou uma onda – assim como jogava também, é verdade, com a ideia de que não era aceito como talvez desejasse: “Já cantei num galinheiro / cantei numa procissão / cantei ponto de terreiro / agora quero é cantar na televisão”, diz um trecho da canção Prezadíssimos Ouvintes.

Itamar Assumpção jamais será um consenso, e este talvez seja um dos seus maiores legados. Ser aceito, para Itamar, não é sinônimo de mérito. De fato, o documentário, que é uma edição de aproximadamente 200 horas de material, mostra que, mesmo no maior dos perrengues, o músico permaneceu durante mais de 20 anos em processo intenso de criação, sempre negando e ao mesmo tempo procurando a si próprio, como acontece quando regravou Ataulfo Alves, seu alter ego. Como diz Luiz Tatit, trata-se de uma música que não nos deixa imunes, que “nos fere”. E que aos poucos, oxalá, vai sendo redescoberta.

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O documentário de Rogério Velloso pode ser visto no site:
http://daqueleinstanteemdiante.blogspot.com.br

2 comentários:

Anônimo disse...

Há uns caras neste país que orgulham a gente né? Um desses caras é o Itamar Assumpção.Valeu Victor esta crônica que adorei e pude ver o filme.Eu andava muito carente de algo que alimentasse minha alminha penada, tipo assim uma novidade boa. Ah e sabe da melhor? A Zélia Duncan fez um CD só com músicas do cara. Consegui copiar e tá uma lindeza. Agora ando assim de barriga cheia. Abraço da sua aluna lagunense.

Clarice Villac disse...

Tão bom saber que vai dar pra ver o filme !
Estou só aguardando finalizar um trabalho grande pra ficar mais disponível e poder apreciar com calma e sossego.
Gostei muito da crônica, Itamar é legado vibrante pra sempre !