28.1.13

Tarantino livre

Por Victor da Rosa
publicado no Diário Catarinense

















Uma das graças dos filmes de Tarantino é que muita gente pode vê-los. Tanto o adolescente que não entra no cinema sem um saco de pipoca que geralmente é maior do que sua própria cabeça quanto a doutoranda em artes que sofre pra anotar em sua caderneta – por ser escuro – grandes reflexões feitas de improviso. Isso pra dizer o mínimo. Por outro lado, haverá quase sempre certa margem de erro nesta manobra que é, no fim das contas, mais ou menos arriscada: o adolescente sairá sem entender uma coisa ou outra, o que é muito bom, e a doutoranda acabará se irritando com algumas facilidades que o filme oferece, o que é bom também. Mas o que mais importa é que todo mundo sai do cinema feliz.

 Isso acontece, pelo menos em minha fantasia, que é suspeita como todas as fantasias, porque Tarantino faz vários filmes dentro de um só. O cineasta consegue fazer filmes para o mercado, que tem regras muito próprias, e também para um público mais exigente, que tem lá as suas regras também. Ao mesmo tempo, e isso é o mais comovente, o cinema de Tarantino não pode ser explicado nem pela doutoranda e muito menos pelo adolescente. Tenho a impressão de que o cineasta mente para ambos. Igual acontece quando a gente prova uma peça de roupa que fica apertada, e aí pede um número maior e a peça fica larga.

 Não acho que Tarantino faça exatamente um cinema de violência, de vingança ou de qualquer outra coisa. O que o cineasta faz é usar estes gêneros e ideias prontas para embaralhar depois no roteiro, subverter algumas regras, brincar com outras, realizar mínimos deslocamentos que geralmente ficam absurdos e, portanto, muito engraçados. Por exemplo, atribuir a dois ou três gângsteres um diálogo que seria mais convencional entre as fãs de Madona, como acontece na abertura de Cães de aluguel. Os personagens dos filmes de Tarantino não são verossímeis, como reclamam alguns críticos, afinal o cineasta lida com estereótipos, com tipos. Seu ponto de partida são outros filmes, como todo mundo diz, e não a vida.

 Tudo isso funciona muito bem para Tarantino porque, tendo em mãos as fórmulas já prontas, o cineasta pode permanecer o restante do tempo delirando. Nos divertimos tanto vendo seus filmes porque, dentre outras coisas, Tarantino também se diverte fazendo. Para mim, que já fui adolescente e hoje sou doutorando, de todos os filmes que o cineasta faz dentro de um filme só, o que há de melhor são as situações absurdas – ou antes a maneira como estas situações são construídas – que causam quase sempre diálogos brilhantes, bem menos frequentes em Django Livre. Por isso tendo a gostar mais de Bastardos Inglórios, mas mais ainda dos filmes anteriores, como Pulp Fiction e Cães de Aluguel, quando Tarantino não usava como principal matéria um fundo político tão evidente, responsável pela vigésima segunda polêmica com o chato do Spike Lee.

 Talvez eu esteja errado, mas tenho a impressão de que, ao lidar com temas historicamente tão delicados, como o nazismo e a escravidão, Tarantino não fica tão à vontade para explorar as conclusões inconsequentes que marcaram seu cinema na década de noventa. É como acontece quando estamos em uma festa para a qual não fomos convidados. Tendo como parâmetro a trajetória do próprio diretor, o humor de Django Livre é menos incômodo, complacente, e os dilemas mais previsíveis. Se seu cinema era pautado pela falta de sentido, pela dicção nonsense, pela inconsequência completa, agora há também momentos de comédia, heroísmo. Enfim, não me pareceu o Tarantino em sua melhor forma, o que está longe de ser um demérito, mas seus filmes são sempre sinônimo de uma grande liberdade.

2 comentários:

Marvin (Sérgio Rodrigues) disse...

Excelente texto. Vou por um link pra ele no meu blog. Gosto muito dos filmes de Tarantino, e dos seus textos. Um abraço.

Victor da Rosa disse...

Obrigado, Sérgio! Outro abraço pra você.