29.1.13

Poeta lê poeta que lê poeta

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Por Victor da Rosa* 
Publicado no Suplemento Literário de Minas Gerais






















Um poema, como se sabe, é também um gesto de leitura. Roland Barthes devia ter razão quando afirmou, em seu curso sobre a preparação do romance, que um gesto de criação passa sempre por uma espécie de “cópia deformante” de outro objeto, um objeto amado. De fato, através de várias formas de referências, dedicatórias, lições, deformações ou mesmo através de uma força, eu diria – ou seja, da maneira mais ou menos visível, tanto faz – todo poema carrega outros poemas (inúmeros poemas) no momento em que nasce. Ou melhor: talvez seja justamente esta a sua condição de nascimento. Qualquer poeta, antes de tudo, deve ser um leitor.

 A coleção de ensaios “Ciranda da Poesia”, organizada por Ítalo Moriconi para a Editora da UERJ – poeta também ele próprio, aliás, além de ensaísta e professor universitário – pretende realizar com esta idéia um dispositivo crítico de leitura da poesia contemporânea escrita em nosso país: “Poeta lê poeta que lê poeta”, diz a apresentação de Ítalo. Ou seja: Masé Lemos lê Marcos Siscar que lê Ana Cristina Cesar; enquanto Ana Chiara lê Angela Melim que lê Leonardo Fróes que ainda não leu ninguém. Em quase dois anos, a coleção já ultrapassa uma dezena de ensaios – embora nem todos (e sim quase todos) tenham sido escritos por poetas, mas não é isso o que mais importa, pois a ciranda não precisa ser completa – sendo que nesta breve resenha darei notícia dos últimos quatro.

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 De maneira geral, com alguma variação de um em relação a outro, os ensaios são curtos. Eu diria também que se preocupam mais em apresentar o poeta a um leitor mais ou menos desavisado do que necessariamente sugerir uma leitura nova de sua obra, o que não é rígido e nem uma regra. Em quase todos, junto com o mérito de não parecerem excessivamente didáticos, há informações biográficas, contextualizações históricas, vôos panorâmicos e algumas passagens pela fortuna crítica; afinal “apresentar uma obra, no sentido mais rigoroso de sua manifestação, é também apresentar uma cena”, nos diz Marcos Siscar na abertura de seu ensaio sobre Ana Cristina. Além disso, cada um dos livros, no final, oferece uma pequena antologia dos poetas analisados, com vinte a trinta poemas, o que facilita a vida de todos, certamente, principalmente a daquele leitor mais ou menos desavisado.

 Depois, o fato de serem escritos por poetas – e mesmo o fato de se tratar de uma ciranda, uma dança popular – não deve levar a pensar que estamos diante de exercícios diletantes, até porque muitos dos autores dos ensaios são críticos também, alguns inclusive especialistas em seu objeto de análise. Por outro lado, e nem deve se tratar de uma contradição, a coleção parece apostar mesmo em certa maneira menos ortodoxa, mais frouxa talvez – livre, quem sabe – de tratamento crítico do poema. Em minha opinião, se trata de um projeto que procura suturar a cisão, aberta à exaustão ao longo dos últimos anos, entre crítica jornalística e acadêmica. A coleção “Ciranda da Poesia”, por proceder com as duas frentes, acaba buscando outra coisa.

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A crítica de Marcos Siscar sobre Ana Cristina, em um livro com a capa vermelha – todos os livros têm o projeto gráfico idêntico, mudando apenas a cor da capa – parece exemplar nesse sentido: a leitura consegue conciliar certa leveza e imaginação com densidade analítica. Partindo da noção de correspondência, Siscar inicia seu ensaio, provavelmente com uma enganosa falta de pretensão, considerando o envio de uma carta a Ana Cristina, que Siscar chama de Ana C., com certa intimidade: “Se eu considerasse minha participação nessa ciranda interrompida como uma carta a Ana C., arriscaria começá-la assim: ‘Prezada autora, preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos vazios’”, restando apenas a dúvida se Ana C. encararia sua correspondência como “provocação, declaração de amor ou atrito teórico”.

 De fato, o procedimento crítico de Siscar parece se equilibrar exatamente sobre essa dúvida: provocação, declaração de amor ou atrito teórico? O ensaio avança e é possível notar que o significante "correspondência" – “um gênero de escrita e uma ideia de relação” – também vai sendo modulado, abrindo outros significados e servindo afinal como desejo possível (talvez um conceito mesmo) de toda poesia de Ana. Quer dizer, na medida em que sugere uma forma de escrita crítica que logo depois vai se refletir no próprio tema de seu ensaio – justamente a noção de correspondência – o que Siscar parece realizar é uma espécie de jogo performático. Ler a poesia do outro, nesse caso, deve servir ao mesmo tempo para construir os próprios pressupostos de leitura.

 Depois, noções como o “exibicionismo da intimidade” e a “falsa espontaneidade” na poesia de Ana – que permitirão até mesmo, em alguns momentos, uma inusitada e controversa relação com o “poema objetivo” de João Cabral, relação que infelizmente não pode ser recuperada aqui – estas noções devem se organizar em torno de um verso que, de início, parece tão discreto: “É para você que escrevo, é para você”, como se lê em outro poema de Ana Cristina. De outra maneira, Siscar é o único que escreve, nesta coleção, sobre uma escritora já morta – por ela, para ela –, contingência que o autor chamará de “ruptura da ciranda” e que acaba por sugerir outra pergunta incontornável: o que faz de Ana Cristina Cesar uma contemporânea nossa?

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 Marcos Siscar, até agora, aparece como um dos dois nomes da coleção que dança a ciranda com as duas mãos dadas, digamos – o outro nome é o de Angela Melim – já que, além de atuar como crítico, sua poesia também já foi objeto de análise. Não é aleatório, portanto, que Masé Lemos, ela também crítica e poeta, apresente Siscar como um “poeta-crítico”, alguém que “faz e pensa a poesia”, construindo uma estratégia de leitura particular, a saber: “Assim, por ser ele um poeta-crítico, pretendo apresentá-lo utilizando das autorreflexões críticas que produz, ou seja, ler sua poesia e seus ensaios críticos como versos e reversos”, escreve Masé.

 Talvez por isso o ensaio de Masé acabe tocando em algumas questões semelhantes àquelas que Siscar tratou ao ler a poesia de Ana Cristina – ou vice-versa, pois se tratando de uma ciranda tanto faz – como a definição de que poesia, antes de ser um gênero, é relação; isto é, correspondência: “A poesia é, assim, mais uma relação (...) do que propriamente um gênero discernível, pois está sempre tentando reencontrar seus foras, seus informes, suas bordas, num movimento contínuo de dobra e alisamento”. Na verdade, Masé não deixa de reconhecer certa dívida de Siscar em relação à Ana Cristina; por isso, a crítica afirma que “Siscar retoma e acirra certas questões recorrentes na poesia de Ana C., como a intimidade revelada ao leitor”, e logo adiante enfatiza também uma volta do poeta ao lirismo, mas um “lirismo crítico”.

 Depois, recorrendo mesmo a uma série de ensaios e entrevistas de Marcos Siscar, Masé abre sua análise através do debate sobre a “crise de versos” – que, corretamente, não trata como abandono do verso, como muitas vezes se diz, e sim como investimento em suas variações: a hesitação entre corte e prolongamento seria uma delas. Na segunda parte de seu texto, Masé se dedica ainda a uma passagem por Interior Via Satélite, último livro de Siscar, que passa a ser lido principalmente a partir da noção de sublime e da tensão entre interior e exterior, momento do texto em que são sugeridas algumas associações com uma série de debates mais caros à arte contemporânea, como é o caso do debate sobre paisagem e escultura em campo ampliado. Com isso, a crítica procura concluir, dentre outras coisas, que a poesia de Siscar é tomada por “um desejo de habitação”.

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 Além de ter o mérito de discutir, com certa sofisticação e interesse, a poesia brasileira que é realizada hoje no país – ou parte dela, como queira – esta coleção acaba apresentando também certo panorama da própria crítica de poesia, forma de escrita talvez tão marginal, ou mais, quanto a poesia; e jamais uma forma neutra ou secundária. Digo isso porque duas maneiras bastante diferentes de ler poesia podem ser percebidas nos outros dois ensaios que fecham esta última série da Ciranda: Ana Chiara lê Angela Melim; e Renan Nuernberger, o mais jovem crítico da coleção, lê Armando Freitas Filho. Quer dizer, se Ana Chiara procede de maneira mais fragmentada, abrindo seu ensaio com dois poemas dela própria, que chama de “fragmentos metapoéticos”, e dividindo algumas partes do livro com três de suas orientandas; por sua vez, Renan opta por uma postura mais hermenêutica, por interpretações bastante cerradas e uma forma de escrita mais compacta – trata-se, dos quatro livros, do ensaio com maior fôlego.
















Apesar das diferenças, no entanto, em certo momento, ao tratar da uma “concepção erótica da relação entre vida e escrita”, os dois ensaios se tocam. No caso do ensaio de Renan, aliás, o erotismo e a relação entre escrita e vida servirão como fios que atravessam toda a análise da poesia de Armando Freitas Filho; o esforço será o de responder a uma pergunta que aparece já nas primeiras páginas: “O que é vida (‘de poro a poro’) e o que é poesia (‘ponto por ponto’) quando costuradas tão profundamente num ‘texto’ que descreve os pormenores do ‘corpo’?”, pergunta Renan. Na leitura de Ana Chiara – nesse caso, aliás, a capa do livro é rosa –, o erotismo presente na poesia de Angela Melim se confunde com “uma escrita do feminino”: “imagens sensuais, de fruição de vida, de abrasamento e acidez, como se, por meio dessa pulsão, o mundo das coisas atingisse um grau de intensidade inédito (...)”

 Na verdade, o ensaio de Renan Nuernberger é sobre o corpo na poesia de Armando, desde sua relação com o erotismo, com o sexo, até mesmo sobre a sua posição dentro de um regime de tortura; no limite, trata-se da maneira como o corpo responde, com erótica ou não, às influências do mundo. Por outro lado, Ana Chiara toca também em outros pontos da poesia de Angela Melim que considera importantes, como o “olhar dirigido ao outro” – traço que fez Ana Cristina Cesar, como provocação, escrever uma resenha que se intitulava ironicamente: “Angela virou homem?” – sem fazer, com isso, segundo Chiara, “poesia populista, de fácil digestão, consumível na primeira hora”. Na mesma medida que os dois ensaios se tocam, portanto – e não apenas estes dois, mas todos os outros – eles também podem se afastar. Como o movimento de uma ciranda, afinal.


Victor da Rosa, crítico, é doutorando em Literatura pela UFSC. Organizou, em parceria com o poeta e tradutor Ronald Polito, a antologia “Escutem este silêncio”, de Joan Brossa (Lumme Editor, SP, 2011). Em 2010, ganhou o Prêmio Rumos, de Crítica Literária, do Itaú Cultural.

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