11.8.10

O peso das palavras

Em 2007, por ocasião do lançamento de um filme, realizei uma pequena entrevista com o escritor e editor Cleber Teixeira, que foi publicada no DC. A entrevista não ficou grandes coisas, pois o espaço era curto - há outras entrevistas bem melhores pela internet - mas a oportunidade de visitar o espaço do Cleber, que fica em Florianópolis, foi muito divertida. Quando cheguei, Cleber me levou pra tomar um café - e até chegar na cozinha, depois de uns dois cômodos, devo ter passado por uns cinco mil livros. Acho que o mais impressionante de uma biblioteca não diz respeito ao seu número, mas ao modo como ela é organizada. O caso é que os livros não estavam exatamente em uma biblioteca, mas na casa. Como Cleber não tinha mais espaço, provavelmente, os livros foram ocupando todos os lugares. Ou pelo menos foi esta a impressão que eu tive. De resto, algo comum. O que acontece é que, após tomar o café - e esta é a parte engraçada da história - Cleber me disse precisamente isso: agora vamos conhecer a biblioteca. Olhei pra ele com expressão de dúvida, acho, mas não discordei. E então descemos umas escadas e conversamos. Lá embaixo ficava todo o material de impressão, outras centenas de livros e também, segundo o Cleber, uns livros que ele nem poderia dizer que tinha. Enfim. Como esta entrevista não está mais disponível na internet, republico aqui. O título era o mesmo do post: O peso das palavras.

* * *

Cleber Teixeira faz livros. Desde 1965, ainda no Rio de Janeiro, quando comprou uma impressora, um pedal e tipos móveis, Cleber faz livros com as mãos. A técnica é ainda próxima da imprensa clássica, letra a letra, e o texto vai se formando diante dos olhos e das mãos, como se fosse possível tocar nele, na própria matéria – cada letra com seu peso de chumbo, até formar a palavra, o verso e, enfim, o poema. “Eu sinto, ao compor, o peso das palavras”, diz o editor. Hoje a editora Noa Noa conta com vários títulos publicados, de obras mais raras até escritores brasileiros, desde José Paulo Paes, Hugo Mund até Mallarmé e Keats.

Com uma organização que impressiona, os papéis cuidados em gavetas, as inúmeras fontes de chumbo em outras, sempre como um grande livro possível de se fazer, todo seu material de edição se encontra na sua própria casa, em Florianópolis – que é tomada, aliás, por livros em todos os lugares. Foi esta mesma casa que serviu de cenário para o documentário Só tenho um norte, sobre Cleber e a Noa Noa, que será lançado hoje no cinema do CIC. Nesta breve conversa, por sua vez, Cleber diz um pouco da história da editora, de como surge, dos autores que publicou e de como tudo se confunde, por vezes, com a própria vida mesmo.



Victor da Rosa – De início, Cleber, gostaria que falasse de como surgiu este interesse em construir uma editora – lá em 1965 – que fizesse livros com uma tipografia clássica, próxima do modelo de Gutenberg, juntando letra por letra. Você diz, é mais um projeto de vida, e leva esta atividade com a dimensão de um afeto.

Cleber Teixeira – A minha paixão por livros deve ter nascido quando eu tinha sete para oito anos. Ao completar oito anos ganhei de presente do meu pai a obra completa (completa mesmo, não apenas a infantil) de Monteiro Lobato, o Tesouro da Juventude e o Lello Universal, dicionário enciclopédico editado em Portugal, pela Lello, em dois grossos volumes, farta e belamente ilustrados. Fiquei de tal modo deslumbrado com o presente que acho que naquele momento, de modo silencioso, mas solene, decidi que o que eu gostaria de fazer nesta vida era escrever, fazer e ler livros. Projeto ambicioso, maravilhosamente ambicioso e sem fim. Sessenta anos depois, aquela decisão tomada aos 8 anos é renovada a cada dia e a cada dia com mais entusiasmo.

O interesse pela tipografia, pelos tipos móveis, vem também da infância, mas só entrei numa oficina tipográfica aos vinte e poucos anos. Não foi uma paixão à primeira vista porque eu já era apaixonado pelos tipos. No início, uma paixão sem intimidade. Logo que pude, em 1965, comprei uma impressora e pedal, alguns tipos e aprendi a compor. O menino que se deliciava com Lobato, o Tesouro da Juventude e o Lello estava bem vivo e feliz.

Victor – A opção dos escritores e poetas que você edita e editou, sejam estrangeiros ou brasileiros, aponta para o interesse numa invisibilidade e também em um projeto de linguagem de maior radicalidade. Mais uma vez é possível pensar nos afetos, e em escritores que lhe formaram, aliás, como poeta. Também houve uma aproximação sua com os intelectuais concretistas, que traduziram muito para a Noa Noa. Gostaria que falasse um pouco destas opções e destas relações.

Cleber – O projeto editorial da Noa Noa, que criei em 1965, tinha, como não poderia deixar de ser, a cara do dono. Eu queria ser poeta, além de editor/impressor. E quase todos os aspirantes a poeta em formação nos anos 60 foram influenciados pelo movimento concretista. E o poder de sedução dos concretistas não foi pequeno, como não é pequena a obra que realizaram. Traduziram, divulgaram manifestos, recuperaram poetas importantes injustamente esquecidos, dialogaram com artistas plásticos, músicos, etc. E poetaram. Exerceram uma poderosa influência.

Trabalhei com Augusto de Campos desde que montei a editora. Interessava a mim, como poeta em formação, o trabalho que Augusto estava realizando. Eu acreditava, e continuo acreditando, que compondo, letra a letra, poetas que ele traduziu e que admiro (como Mallarmé, Cummings, Donne, Keats, entre outros) eu tinha a rara oportunidade de penetrar nos poemas um pouco mais do que lendo apenas. Eu sinto, ao compor, o peso das palavras. Tinha a oportunidade de abordar o poema sentindo o peso das palavras. Eu considero isto uma vantagem sobre outros aprendizes de poeta, mas jamais tive a pretensão de me considerar um leitor mais competente do qualquer outro leitor. O trabalho com Augusto nos aproximou e nos tornamos bons amigos. A minha afinidade maior sempre foi com o Augusto. Estive com o Haroldo inúmeras vezes, mas o meu amigo é o Augusto, com quem ainda pretendo trabalhar.



Victor – Você vive durante 30 anos em Florianópolis, Cleber. De início, é bastante curioso pensar nesta sua vinda para a ilha na década de 70. De qualquer modo, você acompanha a vida cultural na cidade durante todo este tempo. Gostaria que falasse também um pouco de como estas relações acontecem e aconteceram, de seu diálogo com artistas e escritores daqui.

Cleber – A minha mudança para Florianópolis, por razões familiares, trouxe coisas boas e outras nem tanto. Até o dia da mudança, eu não tinha certeza de que fizera uma boa escolha. Mais de trinta anos depois, ainda não tenho. Fiz bons amigos aqui e tenho filhos e netos manezinhos. Tenho razões de sobra para gostar de Florianópolis, mas tenho um pouco mais para sonhar com uma volta ao Rio, o que não acontecerá.

Victor – Agora, surgiu este documentário, Só tenho um norte, sobre seu trabalho e sobre a Noa Noa. Gostaria que dissesse um pouco desta experiência de conversa, de como você recebeu a proposta.

Cleber – O documentário Só tenho um norte é obra do Alexandre e equipe. Eu sou apenas um assunto, como a “velha a fiar” do célebre documentário do Humberto Mauro. Eu não me sinto nem um pouco à vontade diante da câmera. Espero que a platéia tenha paciência com o meu desempenho.

3 comentários:

Ge Orthof disse...

emocionante

Ge Orthof disse...

emocionante

Sandro Brincher disse...

Grande ser humano, antes de tudo.